A pandemia assolou o mundo e mexeu com nossas vidas. Alguém me disse que seria bom escrever. Cá estou eu. Em janeiro, fui a Búzios e lindamente vivi uma semana de alegrias, frequentei praia de nudismo, bebi, sorri, ri, conheci pessoas novas.
Quando criança era tímida. Mal ajeitada, de óculos. Inteligente, todos diziam. Mas o que eu queria era ser tudo: inteligente, bonita, boa nos esportes, rodeada de amigos. Mas que; me sentia feia e gorda, palavras que se arrastam até hoje e fazem parte da minha vida.
Na escola, para sobreviver ao que hoje chamam de bullying, eu encarnei o papel da inteligente, turma da frente, melhor caligrafia. Reunião os colegas em casa para estudar, mas não antes deles comerem o famoso feijão da minha mãe, D. Noemia.
Na minha época, não ia a boates, ia aos bailinhos nas casas dos amigos, do tipo cada um leva algo. Bebida, comida e música. Ainda se dançava música lenta. Minhas amigas tinham namorados. E eu? Vixe, não me lembro do meu primeiro beijo, sei apenas que foi tarde. Eu não me encaixava no perfil da garota que se pede em namoro. Eu era a sonhadora romântica que sofria. Sofria pelo ser amado que, claro, sempre se tornava namorado de uma amiguinha. Rs.
Por algum motivo, cresci assim. Fui uma adolescente problemática. Sempre na minha. De poucos amigos. Popular? Jamais.
Foi aí que começou a história do:sou gorda. Sim, sou na verdade alguém que tem pouca bunda, seio grande, quadril largo e uma barriga mais que saliente. Não sei bem por qual motivo, auto-estima é algo que não cabe no meu vocabulário, ainda hoje. Mas, jovem e arrogante, pensava que eu conquistaria tudo: amor, carreira, sucesso, viagens. Mas o tempo passou; não percebi e, quando me dei conta, a minha auto-imagem tomou conta de mim, mas nem mesmo o orgulho da inteligência eu consegui manter pelo caminho. No que me transformei? Alguém que descobriu que não é feliz, que sempre se depreciou, sujeitou-se a um relacionamento (que de fato nunca existiu), por pura falta de amor próprio e por pura carência.
A pandemia me fez ver quem eu sou.
Voltando a janeiro, na volta decidi emagrecer e obtive sucesso. Na pandemia, a ansiedade, falta de inteligência emocional, me vi novamente atracada aos doces. Amo fazer bolos, tortas, tudo que leve açúcar, leite condensado e creme de leite. Fiquei semanas brigando comigo mesma. E, claro, engordei tudo de novo.
Sabotagem é uma palavra que me dia bem aos ouvidos, mas gostaria de nunca tê-la experimentado.
Emoções, sentimentos, atitudes e a falta delas; tudo me transformou no que sou hoje. A pandemia fez uma devassa nas minhas emoções, pensamentos. Destruí as imagens dos sonhos que tinha na vida. Deixei alguns estilhaços para reconstruir a minha história. Só existem dois caminhos, um que me leva adiante e outro que me deixa estagnada. Serão suficientes para resgatar o que havia de bom em mim e reconfigurar a minha caminhada? Somente eu posso saber. Só cabe a mim conquistar. Tenho de me perdoar pelo que não fui; parar de lamentar pelo que não tive.
Pra recomeçar, tem de ter persistência. Tentei vários recomeços. Serei capaz de me reinventar?